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As moscas brancas da escola pública

  • Foto do escritor: Eugênio Rego
    Eugênio Rego
  • 23 de jan. de 2024
  • 5 min de leitura

Uma das primeiras lições que aprendi na faculdade de Comunicação é que notícia é algo incomum, inesperado e de interesse público como o fato de um homem morder um cachorro. Já no mundo corporativo chama-se de mosca branca aquele profissional que beira a genialidade e é o desejo de contratação de grandes empresas. Em suma, o termo é usado para qualificar algo como muito raro.


Todos os anos, quando o resultado do ENEM é divulgado, sempre me veem à cabeça essas duas expressões: notícia e mosca branca. Em 2023, dos 60 estudantes que atingiram a nota máxima na redação do Exame Nacional do Ensino Médio, apenas quatro são alunos de escola pública. Estas poucas moscas brancas da escola pública viraram notícia. Pelo grande feito deveriam desfilar em carro aberto, ganhar a chave da cidade e um busto em praça pública. Guarde-se espaço também para os que chegaram aos 900 e tantos pontos na redação. Na escola pública esse número tem gosto de nota mil.


O grande desafio do ensino médio nas escolas públicas brasileiras é fazer sentido para os alunos. A internet faz parte da vida dos jovens e adolescentes, mas está fora do ensino cotidiano

O quarteto fantástico da nota máxima na redação é parte dos (muito) poucos cerca de 6% dos alunos de escola pública que fizeram a prova de redação. Quase metade dos concludentes do 3º ano do ensino médio dessas instituições nem chegaram a fazer o Exame Nacional do Ensino Médio. Saiba mais clicando aqui.


Estudei em escola pública a vida inteira, exceto no período em que precisei pagar um curso preparatório para entrar num bacharelado concorrido. Há um bocado de anos sou professor dessa Instituição e a conheço até do avesso. Depois de tanto tempo vivendo dos dois lados da sala de aula, entendi e aceitei que a escola pública não pode prosperar. Os números do ENEM recente são um sintoma gravíssimo disso.


Desde que a educação virou um negócio - no qual muitos políticos são empresários - a escola pública se tornou o patinho feio: desacreditada, malquista e deixada para trás por (muitos e não todos) professores, pais, alunos e órgãos públicos. A escola também se tornou um sistema de exclusão social no Brasil...


DESCONECTADOS DA REALIDADE Como professor, posso dizer que o que nos falta é "apenas" primeiro pilar da excelência de qualquer profissional em qualquer área: incentivo (leia-se salário compatível com a atividade laboral) e infraestrutura adequada para trabalhar - hoje conseguimos fazer videochamadas com o mundo inteiro, mas não conseguimos um passeio virtual em um museu brasileiro em sala de aula.


Quase na metade da segunda década do século 21 e 30 anos desde o início do uso privado e comercial da web, a grande maioria das escolas públicas do país ainda não tem sinal de internet que possa ser usado com objetivo pedagógico - esse é só um dos muitos problemas das instituições de ensino público brasileiras não somente no ensino médio.


Para além dos problemas intramuros, há ainda as questões familiares : a educação formal ainda é vista como um trabalho único e exclusivo da escola. Aos pais - segundo pilar do ensino aprendizagem - caberia apenas a educação afetiva e moral. Raramente se consegue convencer famílias que aprender é um processo global que, se deixada a cargo apenas da escola, nem de longe produz o efeito desejado. Não é raro ouvir de pais e mães que trabalham o dia inteiro e não tem tempo para acompanhar a jornada do filho da escola ou cobrar desempenho - isso também deve ser mais atribuição da escola. Cada vez mais a educação dos filhos tem sido delegada à internet e ao videogame.


Para além de lutar praticamente sozinha na formação do estudante, a ideia de que a escola pública é gratuita e também só piora o quadro. Cresci vendo colegas de sala quebrar carteiras, riscarem paredes e desperdiçar merenda porque "é o governo que paga". Educação financeira, pensamento crítico e leitura da realidade deviam ser assuntos abordados em casa também para além do Brasileirão e da dancinha da vez no Tik Tok. Celular não é uma babá confiável.




A imagem que muitos alunos tem da escola pública não é muito diferente do que a sociedade tem dela. Para muitos, a escola privada é melhor justamente porque é paga.

Sempre pergunto aos meus alunos o que eles acham o que o filho do "rico" está fazendo naquele horário. A resposta nunca me decepciona: dormindo, na Disney, mexendo no Iphone, jogando Free Fire e por aí vai... Em resumo, a grama da escola do meu vizinho é sempre melhor que a minha. Talvez chegue o dia em que vão perceber que quem faz a escola é o estudante e ninguém além dele. Sem interesse em aprender e valorizar o ensino nem Harvard lhe salva.


INTEGRAL É O TEMPO E NÃO O ENSINO: O quarto pilar que segura a escola pública é justamente o mais defeituoso: a pasta da Educação é uma das campeãs de escândalos de desvios de verbas. Precisa dizer mais? Mesmo assim, escolhendo o menor dos males, há um onda de transformação das escolas regulares em centros de ensinos de tempo integral, mas são só isso mesmo: integral é apenas o tempo e não o ensino. Diz o ditado que ruim é o diabo do nada...


Aqui lembro do crítico de cinema Jean Claude Bernadet que dizia que o Brasil era pródigo em fazer arremedos de filmes americanos - parece que na educação pública também. Não basta apenas aumentar carga horária e tempo de escola para o aluno sem oferecer estrutura adequada para descanso, passatempo educacional, apoio psicológico e social e outros recursos para que o alun@ se sinta atraído, acolhido e bem no espaço escolar. A solução será novamente construída pela teto: há a previsão de bolsa para manter o aluno na escola. Nada contra, mas o problema não é o aluno estar na escola, mas sim vê-la como plataforma segura para a vida adulta e profissional. É fazer com que ele veja sentido em estudar e no ENEM.


Todos os anos, junto com a pequena lista de moscas brancas do Enem que viram notícia, sempre me frustro com lembrança da quantidade de talentos em todas as áreas que estão nas escolas públicas país afora esperando para que sejam descobertos (e realmente valorizados). Ainda bem que, do grande enxame de estudantes, pelo menos algumas moscas brancas escolhem voar acima da nuvem. Esperemos que elas se multipliquem a cada mesmo no ambiente um tanto inóspito em que são criadas.


Devido à grande abstenção de estudantes do 3º ano do Ensino Médio no ENEM, o MEC vai fazer uma pesquisa para entender como esses alunos veem o Exame. A pergunta a ser feita devia ser como eles veem o ensino médio público. Talvez o ministério finalmente encontre um meio para que, finalmente, as moscas brancas sejam a regra e não a exceção.






 
 
 

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© 2018 por Everson Oliveira. 

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