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  • Foto do escritorEugênio Rego

Revire os olhos, mas pratique empatia

Não sei vocês, mas fila, para mim, é uma experiência antropológica e social. Fila de supermercado, então... É o momento em que faço um ato de contrição para saber se estou melhorando ou piorando como ser humano. Muito difícil não julgar o outro pelo tamanho do carrinho ou cesta de compras e cara de "quem matou Jesus Cristo", como diz mamãe.


Pouco antes de retomar a escrita deste post, fui presenteado com uma queda de braços, ou melhor, queda de "carros" entre marmanjos. Dois motoristas, em sentidos opostos da rua, disputavam o direito de seguir caminho na via estreita. Um dos condutores chegou a sair do carro e cruzou os braços em sinal de que não iria ceder passagem. O trânsito e a vizinhança pararam para ver o embate. A gente que é pobre adora uma treta no meio da rua...


Dia desses me deparei com uma moça tentando furar a fila de carros numa rua movimentada no centro da cidade. Quando percebeu que eu não ia deixar que ela passasse na minha frente, me pediu para abrir espaço porque estava em fila dupla e na frente de uma garagem. Fiz a egípcia e ignorei, mas ainda escutei um "se o senhor não quiser deixar eu passar, tudo bem..." Não, não deixei e tudo ficou ótimo, principalmente para mim. Uma pena que a pressa dela era infinitamente menor que a paciência de quem já estava havia alguns minutos tentando atravessar um cruzamento movimentado para resolver a vida.


Costumo revirar os olhos para gente que não agradece quando seguro a porta para que elas passem. Apesar de pensarem que sou mordomo ou algo assim, sigo fazendo a gentileza e revirando os olhos. Digo um "de nada" e sigo a vida. Pé na cadeira para mostrar a quilometragem do calçado é um clássico da extrema falta de educação. Estou falecendo um pouquinho a cada dia convivendo com o costume de casa que vai às minhas salas de aula há 22 anos.


Não se vai à escola apenas pela educação formal, mas também para aprender que o mundo é vasto, diverso e pertence a todos. Sendo assim, é na sala de aula, no intervalo, no compartilhamento de espaços públicos e privados que temos que desenvolver qualidades como a empatia, a gentileza e o respeito ao outro e ao que é dele. Entendo sua vontade de deixar uma garrafa de plástico ou um papel de bombom como lembrança para seus filhos, netos, bisnetos, etc, mas as ponha no lixo que é o local adequado...


Levei muito tempo refletindo para poder escrever sobre uma verdade difícil de engolir: a imagem de gente boa do brasileiro é uma mentira. Somos um povo amigável, mas detestamos seguir regras e nos colocarmos no lugar do outro - farinha pouca... Esse talvez seja o motivo de vermos, em plena pandemia, tanta gente ignorar deliberadamente o uso de máscara e o distanciamento social e fazendo farra na festa do "se você não for, só você não vai".


O meme-bordão "você que lute" caiu na boca do povo e até tem uma versão no piauiês: Dê seus "pulo"! A frase poderia estar na bandeira do Brasil para nos lembrar de que neste país (e estado) existem mais exceções do que regras. Lembra das filas? Tem coisa mais surreal do guardar lugar para outra pessoa? Pois é...


No quesito burlar as regras, não estamos sozinhos no mundo pois fazemos parte da longa lista de países com culturas de alto contexto. O termo foi criado pelo antropólogo Edward Hall nos anos 1950 e descreve as nuances da comunicação interpessoal em diferentes países e sociedades.


A teoria de Hall me fez lembrar que semana passada fiquei sabendo que não é permitido criar galos em zona urbana nos Estados Unidos. O motivo para uma lei absurda dessas é preservar o direito ao silêncio que o vizinho do possível galináceo tem. Imagine ser acordado no seu precioso dia de folga pelo canto estridente de um Pavarotti de penas. Pior ainda é aguentar horas de homilias, louvores, discursos e coisas do gênero amplificados por uma caixa de som potente porque o seu direito de manifestar sua fé, posicionamento político ou preferência musical se vale mais que o meu sossego.


A lista de desrespeito às regras (e leis) nesta cultura de alto contexto verde e amarela é gigantesca. Eu mesmo tenho minhas multas de consciência. Escrevo até mesmo para exorcizá-las e testemunhar que empatia é algo difícil, mas não inalcançável.


Já briguei muito com gente trancando minha garagem - e continuo esperando a polícia de trânsito vir resolver a infração até hoje. Pedi inúmeras vezes para tirarem o pé da cadeira, colocarem o lixo no lixo e fecharem a porta ao sair. Também já cansei de apagar o quadro de acrílico com a aula prévia do meu/minha colega professor (a).


Confesso que hoje xingo menos mentalmente quem me deixa esses presentinhos. Já foi bem pior. Acredite. Buzinaço no trânsito? Era uma delícia... Parei também. Revirar os olhos e aumentar o som do rádio é terapêutico. Paciência, Senhor!


Espero que até aqui esteja se divertindo lendo minhas garatujas, mas gostaria que a verdadeira mensagem seja clara: colocar-se no lugar do outro nas mínimas situações do cotidiano faz toda ajuda a pôr em prática a tal máxima de ser a mudança que você deseja para o mundo. Não é fácil nem agradável muitas vezes embora necessário no mundo louco em que vivemos. Mais uma coisa: somos muito mais o que fazemos quando não há ninguém olhando do que como agimos em público.


É uma batalha titânica reconhecer que estamos sempre apontando o dedo para o outro enquanto esqueço que há três apontando para mim. Sartre explica tudo isso com seu "o inferno são o outros" - é na convivência que se mostra o nosso eu verdadeiro. É sempre em espaços de interação (aglomeração?) que as máscaras caem. E em tempos de pandemia em que respeitar o espaço do outro e proteger a saúde coletiva pode decidir quem vive ou morre, o lugar-comum assume sentido literal.















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