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  • Foto do escritorEugênio Rego

O rancor é um velho amargo e doente

Viggo Mortensen é um homem de sorte. Quis o destino que o Stuart Thowsend, primeiro ator escalado para viver Aragorn da trilogia "O Senhor dos Anéis" brigasse com o diretor Peter Jackson e fosse demitido. Mortensen era o segundo da lista e desde então seu nome engrossa os créditos de qualquer filme grande ou pequeno.


O ator americano de sangue dinamarquês já foi indicado ao Oscar pelo menos três vezes por sua capacidade de canalizar personagens fortes, rústicos e, às vezes, intragáveis, mas ao mesmo tempo apaixonantes como o pai preocupado em blindar os filhos contra as maravilhas e desgraças da vida moderna em "Capitão Fantástico".


Como não precisa provar mais nada como ator, parece que Mortensen tem tido mais tempo para investir em trabalhos do lado de lá câmera e o resultado não poderia ser menos duro, indigesto, comovente e reflexivo do que os personagens que o ator tem interpretado ao longo de sua carreira - é dele a direção e o roteiro de "Falling - Ainda Dá Tempo" (EUA, 2020) que estreia essa semana nos cinemas.


A produção é um daqueles filmes que nos fazem revirar na poltrona tentando encontrar lugar para ocultar nossas memórias familiares amargas e doloridas que teimam em aparecer diante de um gatilho desses. Confira o trailer abaixo.



"Falling" tem ainda um plus: a lenda viva Lance Henriksen que, do alto de seus 81 anos, é a mola propulsora desse drama familiar um tanto "autobiográfico". Henriksen dá muita vida ao decadente, racista, homofóbico e machista Willis, um fazendeiro que começa a apresentar sintomas de demência e terá que morar com seu filho gay (Mortensen) e o marido dele (Terry Chen), em Los Angeles.


A sequência de abertura já dá o tom do que vem pela frente. Em surto, Willis incomoda os passageiros em um voo noturno distribuindo xingamentos e palavrões para quem passar na sua frente enquanto o filho tenta controlar a fúria doentia do pai. Para além da doença, Willis é um poço de amargura e rancor, um retrato do ser humano que nunca se desculpa porque o inferno é sempre o outro.


O rancor e as mágoas injustificadas de Willis contrasta com a delicadeza, educação e paciência do filho John, interpretado com muita economia e sutileza por Mortensen. Um dos pontos altos do filme é a cena do almoço de domingo. John, seu marido e a filha (ambos descendentes de imigrantes), sentam-se à mesa com o avô, a tia com seus filhos de cabelos coloridos e piercings espalhados pelo corpo. É o momento perfeito para Willis, cuja mente divaga entre surto, memórias amargas e a realidade, vomitar ondas de preconceito e amargura.


Se o espectador prestar um pouco mais de atenção, vai perceber que "Falling - Anda Dá Tempo" faz uma crítica velada entre e a América conservadora e branca, simbolizada pelo fazendeiro velho e de mente estreita, num embate com a América progressista representada pelas famílias de John e sua irmã.


O subtítulo em português é uma dica para a catarse do final do filme, mas não se engane: a redenção é para poucos e nem todo mundo está disposto a deixar de lado suas convicções para dar a mão à diferença, mesmo que ela seja fruto do seu próprio sangue. Veja o filme nos cinemas; eu vou vê-lo agora na premiação do Oscar 2022.


O blog assistiu ao pré-lançamento do filme à convite da Califórnia Filmes, distribuidora do título no Brasil





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